A reação de uma população cercada pela criminalidade

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Ovação a soldado que matou adolescente infrator reflete sentimento dúbio ante a violência urbana

Ao aplaudir a ação do policial militar Rodrigo Rodrigues Ziebell, que matou o infrator Tiago Dornelles Bento, 17 anos, em troca de tiros ocorrida dentro de uma farmácia, na noite de quarta-feira, moradores do bairro Floresta, na Capital, expuseram o sentimento de uma população desprotegida. Mas a ovação é vista com restrição por especialistas, defensores dos direitos humanos e pelo próprio comando da Brigada Militar.

De pijamas em casa, a cabeleireira Maria Elena Martínez, 53 anos, assistia à TV quando sirenes da polícia chamaram sua atenção. Como Daphne Martínez, 17 anos, sua única filha, não havia chegado, Maria Elena se desesperou. Vestiu a primeira roupa que encontrou e foi para rua. Na frente da farmácia Droga Raia, na Avenida Cristóvão Colombo, deparou com dezenas de policiais. Quando começaram a sair do estabelecimento, a uruguaia radicada há 29 anos em Porto Alegre olhou para o soldado e perguntou:

– Foste tu quem matou ele?

Ao sinal de positivo, ela bateu palmas e o abraçou. Uma dezena de curiosos, que acompanhavam o desfecho, a imitaram. Eles representam uma população acossada pelo crime. A aclamação ao ato do policial (um inquérito policial irá apurar as circunstâncias do fato) é visto com cautela pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RS, o criminalista Ricardo Breier:

– Acho que a Brigada deve evitar ao máximo confrontos armados, que podem colocam em risco inocentes. Agora, se a pessoa está agindo em legítima defesa, não há o que fazer. Tenho um temor de que isso seja banalizado e que passe a se legitimar mortes.

Ontem, no sepultamento, familiares de Tiago reconheceram o envolvimento do adolescente com delitos, mas lamentaram os aplausos por sua morte.

– Fosse com um filho deles, não aplaudiriam – diz Ieda Bento, 51 anos, tia e madrinha do garoto.

Conforme a mãe do adolescente, uma babá de 33 anos que pede para ter o nome preservado, há três anos ele se envolvia com drogas.

– O guri fez algo ruim, mas não precisava pagar com a vida. Será que não poderia ter uma segunda chance?

CARLOS ETCHICHURY

Multimídia

“Tiro é nosso último recurso”

A cúpula da Brigada Militar afirma compreender as manifestações efusivas de populares à ação do soldado Rodrigo Rodrigues Ziebell, lotado no 11º Batalhão de Polícia Militar, que matou um adolescente infrator durante uma tentativa de assalto. Mas o subcomandante-geral da corporação, coronel Altair de Freitas Cunha, adverte:

– O tiro é o último recurso. Nossa missão é salvar vidas, inclusive a de um bandido. Agora, se alguma vida tiver de ser perdida, que não seja a nossa.

Coronel Altair, como o subcomandante é conhecido entre seus pares, salienta que a ação de Ziebell foi “boa”, “técnica” e “sem uso desnecessário de tiros”. O oficial teme, porém, que os aplausos estimulem soldados a empunharem seus revólveres de forma desnecessária.

– Não podemos glamourizar a ação porque pode estimular que os demais colegas façam o mesmo. Os disparos devem ser dados em áreas não letais, mas nem sempre isso é possível – reconhece o coronel.

Procurada por Zero Hora, a coordenadora das Promotorias de Justiça de Defesa de Direitos Humanos de Porto Alegre, Míriam Balestro, preferiu se manifestar sobre a operação policial aclamada por cidadãos por meio da assessoria de imprensa do órgão. Num dos trechos da nota, Míriam diz:

“O Estado está autorizado a agir dentro do uso dos meios necessários para fazer parar a agressão. Situações de legítima defesa, sem excessos, estão autorizadas a todas as vítimas de agressões injustas, indistintamente, nos termos da legislação penal. Excessos e caracterizações outras devem ser apurados nos termos da mesma legislação penal”.

ZERO HORA