Eu, eu mesmo e a Independência

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Oscar Bessi Filho

bessi@bm.rs.gov.br

Eu, eu mesmo e a Independência

No Dindohm – alguém me perguntou, numa palestra, se isto era sonoplastia de sino, mas expliquei, é como se conhece o famoso Dia Internacional do Homem Másculo, que a ONU decretou ser 4 de setembro, em virtude do meu aniversário, claro -, enquanto assisto a desfiles cívicos, me questiono. O que fizemos com a nossa Independência? Num palanque do Interior, perguntei ao sujeito ao meu lado.

– Tchê. E a Independência?

– Ah, é fácil. Sabe a Santa Casa?

Não dá. O sentimento cívico precisa ultrapassar o mero nome de rua ou o nariz torcido da criança que perde o feriado num desfile da Pátria. Democracia e liberdade são tesouros. Jogá-los fora é se render ao domínio, ao medo, à ausência de certezas. E não ter certeza é não ter paz. É ter a insegurança como parceira do cotidiano.

Dou um exemplo. Em dias em que se criticam manifestações de policiais militares em sua forma – queimar pneus -, a Câmara de Vereadores da Capital se autoconcede um aumento astronômico de salários. Justificativa? Os deputados o fizeram, nós também queremos. Uau. Se for assim, haja produção de meias e cuecas que baste neste país afora. Um integrante do Legislativo chegou a declarar, à imprensa, que com o salário atual dele não dava para trabalhar direito. Gente, e o que faz então um policial militar e seus parcos caraminguás? E um professor?

Eis um ponto. Nem sempre somos livres sequer para gerenciar nossa comunidade conforme a necessidade, ou o anseio coletivo. Que o dinheiro, ah, esse sai sempre da mesma fonte. O nosso bolso. País afora, cidades inteiras têm se mobilizado contra projetos de aumento no números de vereadores em suas casas legislativas. Iniciativas bombam se alastram em mobilizações populares e criativas.

Aos que estão nessa luta, mostro um exemplo de vitória: em Montenegro, já estava praticamente aprovado o aumento de dez para 13 vereadores, quando um movimento nasceu na página local do Facebook – a comunidade Montenegro RS. Capitaneado por intelectuais e lideranças populares, tomou conta das ruas, invadiu as sessões da Câmara e conseguiu reverter a história. Que já estava posta. Os vereadores, ante a pressão popular, mudaram de posição. Partidos se reuniram às pressas e decidiram não enfrentar a vontade da massa. Viram, num acesso de lucidez, que não fica bem decidir o que quem os elegeu não quer. Vitória do povo. Ou seja, dá para chegar lá. Dá para ter Independência. Basta estar atento e não cruzar os braços. Enfim. Já pensou se a moda pega?

Correio do Povo