Piratini deixa solução para Comando-geral da Brigada

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Corregedoria-geral da BM coleta provas e chamará segundo-tenente que admitiu queima de pneus 

Caberá à própria Brigada Militar (BM) encontrar uma maneira de dar fim à onda de protestos dos policiais por reajuste salarial. Além de manter suspensas as negociações sobre aumento, Casa Civil e Secretaria da Segurança Pública exigem do Comando-geral da BM rigor nos inquéritos que tiveram início na semana passada.

Ochefe da Casa Civil, Carlos Pestana, indicou o comandante-geral da Brigada, Sérgio de Abreu, para tratar do assunto protestos. Procurado, o secretário da Segurança Pública, Airton Michels, declarou que somente a Corregedoria-geral da BM se manifestaria. O corregedor João Gilberto Fritz informou que os inquéritos estão na fase de “coleta de provas”. No sábado, houve protestos em Cerro Largo, Santa Maria e Cruz Alta. Desde 4 de agosto, são mais de 30.

– Todos os fatos serão apurados, e os responsáveis responderão na medida da sua culpabilidade – anunciou, ressaltando que a corregedoria instaurou, na semana passada, um Inquérito Policial-Militar (IPM) para centralizar informações das investigações regionais.

A tática é abrir inquéritos e sindicâncias nos comandos regionais, para identificar os manifestantes e apurar responsabilidades. Delitos comuns, como obstruir rodovias, irão para a Justiça Civil. Já os que dizem respeito à BM, como quebra de hierarquia e de disciplina, serão remetidos para a Justiça Militar.

NILSON MARIANO

Policial terá de explicar declarações em entrevista

Na edição de ontem, Zero Hora revelou que dois policiais militares foram identificados nos atos de queima de pneus para trancar rodovias, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Um deles é João Carlos dos Santos, o Lilica, 47 anos, que trabalhou no Palácio Piratini durante a gestão Olívio Dutra e concorreu a vereador pelo PT, em Alvorada. O outro atuou na Casa Militar, no atual governo. Os dois serão convocados.

– O encarregado do IPM deverá chamá-los e avaliar o grau de comprometimento deles – anunciou o Comandante-geral da BM.

Após admitir participação em três protestos com queima de pneus, Santos deverá ser chamado à Corregedoria-geral da Brigada Militar. Ele também terá de explicar como sabe que tenentes e capitães estão envolvidos nas manifestações, consideradas vandalismo por autoridades.

O presidente da Associação dos Oficiais da BM, tenente-coronel José Carlos Riccardi Guimarães, enfatiza que a sua entidade não apoia atos de vandalismo (veja entrevista ao lado). Afirmou que os oficiais estão solidários aos praças, mas dentro da lei.

– Sou contra incendiários. Sou pela legalidade – destacou Riccardi.

A informação de que integrantes de partidos simpáticos ao governo, como PT, PC do B e PSB, estão organizando os protestos desagradou entidades. O presidente da Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes, Olivo Moura, disse que “estas pessoas ligadas a partidos” estão prejudicando as negociações:

– Nós, policiais militares, somos pagos para reprimir esses atos, que são de vândalos. Nunca patrocinamos isso.

Multimídia

ENTREVISTA

“Os oficiais envolvidos não têm legitimidade”

José Guimarães, presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar

Tenente-coronel da reserva e presidente da Associação dos Oficiais da Brigada Militar (AsOfBM), José Carlos Riccardi Guimarães apoia as reivindicações dos praças e soldados, mas não os protestos com queima de pneus. Confira trechos da entrevista:

Zero Hora – A Associação dos Oficiais tem relação com esses protestos?

José Carlos Riccardi Guimarães – Com queima de pneus trancando estradas, absolutamente não. Nenhuma ligação. Agora, com protestos ordeiros, estamos ligados de forma intestinal e fraterna.

ZH – A sua associação sabe quem participa das trincheiras incendiárias?

Riccardi – Temos notícias de que são grupos descontentes ligados a partidos do governo. Mas não temos provas. São pessoas que querem desfocar o real objetivo do problema, que é a situação de fome da família brigadiana.

ZH – Se um sargento da reserva sabe quem são os envolvidos, como justificar que oficiais não saibam?

Riccardi – Porque não faço parte de quadrilha nenhuma. Represento uma associação de nível superior da Brigada, que são os oficiais.

ZH – Oficiais estão envolvidos nos protestos?

Riccardi – Ouvi falar que sim. Mas eles não têm legitimidade nenhuma para nos representar. Nossa associação não tem relação nenhuma com isso.

ZH – Mas os senhores serão beneficiados por esses protestos, indiretamente.

Riccardi – Só seremos beneficiados quando tivermos o mesmo tratamento que outras categorias. Queremos tratamento igual aos defensores públicos, aos juízes e promotores. Um capitão, com curso de Direito, não pode receber 30% do que ganha um defensor público. Não há como aceitar isso. E nossos oficiais estão na linha de frente, nas ruas. Não estão atrás de birôs, como muitos imaginam.

ZERO HORA