Passo Fundo: Falta atendimento psicológico na Brigada Militar

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Programa Realidade da Diário AM 570 debateu a necessidade de auxilio psicológico para servidores da segurança pública no Estado. Autoridades alertaram para o estado da saúde mental dos trabalhadores.

 A pressão do dia a dia de trabalho pode ser responsável por graves problemas de saúde. E quando os profissionais presenciam situações de conflitos e tragédias, como por exemplo, os policiais e enfermeiros, a chance do surgimento de transtornos psicológicos é maior. O alerta é do médico psiquiatra, Jorge Salton.

O médico participou do programa Realidade da Diário Am 570 desta terça-feira, 11, que debateu a necessidade de amparo psicológico para servidores da segurança pública. Além dele, discutiram o assunto, o presidente da Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar, Tenente José Luiz Zibetti; o presidente da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho, soldado Jadir Lusa, e o enfermeiro Marciano da Silva.

O psiquiatra Salton listou quatro problemas psicológicos que podem acometer policiais, prejudicando a execução das atividades: a Síndrome de Burnout, a Síndrome de Sísifo, o Stress e Fadiga por Compaixão.

De acordo com o especialista, a Síndrome de Burnout, é diagnosticada quando o profissional perde a energia para o trabalho. “Ele continua trabalhando, mas sente-se desanimado para executar a atividade para a qual está designado. Essa Síndrome acomete muito os policiais, médicos, enfermeiros”, destacou ele.

“Outro quadro é o stress, quando a pessoa fica muito tensa em momentos difíceis. Posteriormente ela também vai ficar com o chamado Transtorno de Stress Pós-traumático. Depois do trauma vivenciado, o profissional ficará com a situação repercutindo em sua cabeça. Surge então a dificuldade para dormir. A lembrança do momento vai atrapalhando o desenvolvimento das funções diárias”. Explicou o médico.

(Realidade dessa terça-feira, 11, debateu a necessidade de auxilio psicológico para servidores da segurança / FOTO ÉDSON COLTZ)

Além dessas, tem a Síndrome de Sísifo. O médico destaca que “essa ocorre quando a pessoa desenvolve a sensação de que o trabalho não surte resultados. Quando a gente está lidando com tragédias que acontecem rotineiramente”.

O profissional que convive com situações trágicas no dia a dia também pode sofrer com a “Fadiga por Compaixão”. O doutor Salton explica que “acontece quando a pessoa se coloca no lugar da vítima que passou pela tragédia e, além disso, tem vontade de fazer alguma coisa para ajudar”. Ele lembrou da necessidade do governo amparar profissionais da segurança. “É preciso organizar um atendimento a essas pessoas, ajudar a prevenir esses quadros e se desencadeados ajudar a atender. Esses trabalhadores necessitam de atendimento 24 horas”, concluiu o doutor.

A Secretaria de Segurança Pública, através do Comando Geral da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, publicou uma portaria no ano passado (Portaria nº 429/EMBM/2010), para criar, instalar e regulamentar Núcleos de Assistência Biopsicossocial na Brigada Militar, nos municípios de Porto Alegre, Santa Maria, Pelotas, Santo Ângelo, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Santana do Livramento, Canoas e Passo Fundo, mas até hoje não foi implementada.

O Tenete José Luiz Zibetti se disse envergonhado por ter de afirmar, em um meio de comunicação, que não existe um atendimento necessário. “Nós temos na Brigada Militar cavalos e cachorros, e esses animais têm atendimento veterinário disponível 24 horas. Se o cavalo tiver uma dorzinha de barriga às duas horas da manhã, lá vai correndo o veterinário atender. E o nosso pessoal, que está na rua atendendo ocorrência de vulto, muitas vezes com morte, não tem atendimento nenhum. Esses vão sofrer abalos psicológicos”, criticou o tenente. Segundo ele, não há médicos, para atender a corporação em Passo Fundo. “Aconteceram fatos que foram denunciados através das associações e não foram tomadas providências. O médico vem de outras unidades do Estado, com motorista e viatura da Brigada. Certa vez ele chegou aqui, porque não tinha um documento, virou as costas e foi embora deixando 15 policiais sem atendimento. Em Porto Alegre e Santa Maria tem há médicos, e aqui em Passo Fundo não tem. A Brigada não tem um psicólogo”, informou Zibetti.

(O psiquiatra, Dr. Jorge Salton, falou sobre os principais problemas psicológicos que podem afetar os trabalhadores da segurança pública / FOTO ÉDSON COLTZ)

Reservista da Brigada Militar, a cada três anos, Zibetti precisa fazer uma avaliação psicológica para ter autorização para portar sua arma. “Eu preciso pagar do meu bolso para um psicólogo, credenciado a Polícia Federal, fazer a avaliação”, revelou.

O enfermeiro Marciano da Silva, membro da Assistência Social da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho, ressaltou que caso o servidor necessite de atendimento médico precisa arcar por conta própria com um convênio de saúde. “O servidor precisa pagar, já com o salário defasado, para ter direito ao atendimento. Devido à condição financeira, precisa se sujeitar a várias outras situações, como a realização de outras atividades nos horários de folga”, afirmou Silva. De acordo com ele, atualmente 1 policial da Corporação, está afastado por problemas psicológicos. Quanto ao processo para licença trabalhista, Marciano explicou que “o médico vem uma vez por semana. É feito uma escala em Porto Alegre que precisa ser cumprida em todo o Estado. Então eles regionalizam esta visita médica para validar o atestado civil”. Ele exemplifica: “a pessoa tira 30 dias de afastamento por um médico civil. Vai na visita médica, abona essa atestado e então é encaminhada para uma junta superior, em Porto Alegre, onde vai ser examinado por um psiquiatra. Isso é somente a regularização do afastamento”.

“Nós precisamos que contratem médicos para dar assistência, e não somente para vir ao quartel carimbar atestado. Nós temos um médico que vem de outras unidades, uma vez pos semana, nas quartas-feiras, apenas para validar atestados que outros médicos já deram.”, pontuou o soldado Jadir Lusa, presidente da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho.

Neste ano, foram registrados dois casos de morte de policiais que, segundo apontam as perícias, teriam sido suicídios.

Regional ASSTBM Passo Fundo

Diretor Zibetti