Propina recusada na prisão de "Nem" corresponde a 24 anos de salário dos PMs

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PMs que prenderam Nem recusaram propina de R$ 1 milhão

O tenente Disraeli Gomes, de 32 anos, está há dez na Polícia Militar. Na quarta à noite, ele comandava a operação de cerco à Rocinha. Ao reconhecerem nele a mesma farda usada, no passado, por dois ex-PMs presos horas antes daquele dia escoltando bandidos na Gávea, três pessoas num Corolla arriscaram a sorte.

“Temos ali no porta-malas R$ 1 milhão, mas é dinheiro de evasão de divisas. Podemos conversar”, disse um dos suspeitos, tentando persuadir o tenente a não abrir o compartimento onde o traficante Nem se mexia.

Disraeli ganha R$ 3.500 líquidos por mês e não vive num mar de rosas. Na mesma equipe, havia outros policiais em situação financeira ainda menos favorável. O cabo André Souza, de 39 anos, está há nove anos na corporação. Recebe R$ 1.700 líquidos, tem um filho de 15 anos que estuda em escola pública, não tem carro nem casa própria.

“Vamos para a Polícia Federal”, disse Disraeli, que estava com a equipe na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. Os policiais não abriram o porta-malas porque o motorista se dizia cônsul.

Parte do grupo de PMs do Batalhão de Choque que participou da prisão de Nem
Parte do grupo de PMs do Batalhão de Choque que participou da prisão de Nem Foto: Roberto Moreyra

Os três suspeitos seguiram no Corolla escoltados pelos policiais. O comboio seguiu até a Lagoa. Nova parada. Um dos três suspeitos saiu do carro e ofereceu um valor fixo: “Dou R$ 20 mil”.

Nova negativa. O grupo segue. Nova parada, até que policiais federais chegaram e abriram o porta-malas. Lá dentro, o prêmio da honestidade: Nem.

extra.globo.com