RS- PMs agora investigam

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No váculo da falta de policiais civis, Brigada Militar apura autoria de crimes para provocar flagrantes

Caxias do Sul – Os autores de dois crimes chocantes das últimas semanas possivelmente estariam em liberdade não fosse a agilidade de homens que atuam nos bastidores da Brigada Militar (BM). Conhecidos como P2, esses servidores escolhidos a dedo investigam e desvendam a autoria de tráfico de drogas e homicídios, tarefa até então considerada exclusiva das delegacias.

A nova postura da corporação militar em Caxias do Sul tem provocado desconforto e críticas nas fileiras da Polícia Civil. Contando com pelo menos 25 policiais à paisana que circulam 24 horas pelas ruas e bairros de Caxias, o serviço de inteligência da BM se notabiliza por resolver em pouco tempo casos que provavelmente se arrastariam por dias ou semanas nas delegacias.

Na prática, o trabalho do P2 da BM preenche um vazio deixado pela falta de pessoal na Polícia Civil.

Explica-se: Caxias conta com efetivo de cerca de 100 agentes civis, o que é muito pouco para investigar crimes, coletar provas, elaborar inquéritos, cumprir mandados e localizar suspeitos. Na prática, quando uma empresa é assaltada ou alguém é assassinado, o caso só começa a ser apurado no dia seguinte se for considerado grave. Essa burocracia facilita, por exemplo, a fuga dos envolvidos e arrasta a solução de inquéritos.

A BM, por sua vez, despacha na hora os P2 para coletar informações que podem levar à prisão imediata de bandidos perigosos. Exemplos dessa agilidade foram a localização do autor das mortes de um taxista e de um segurança na saída de uma boate no bairro Pio X, na manhã do dia 22 de janeiro, e a identificação e prisão de dois homens pelo triplo assassinato de um empresário e dois adolescentes, em São Luiz da 6ª Légua, no dia 24 último.

No crime do Pio X, Douglas Jesus de Lima, 22, voltou para casa após matar dois homens e ferir um terceiro. Enquanto PMs fardados procuravam pistas do jovem em um ponto da cidade, colegas da inteligência seguiram para o lado oposto e surpreenderam Lima em casa, duas horas mais tarde. Se não houvesse essa intervenção, o rapaz poderia ter deixado a cidade.

Também coube à inteligência da BM a solução do mistério em torno do desaparecimento do empresário Gilson Fernandes, 44, do filho dele, Vinicius, 14, e do amigo do garoto, Germano Ioris de Oliveira, 13. Dois brigadianos à paisana se concentraram em monitorar os passos de dois ex-funcionários do empresário. Um deles, Luciano Dickel Boles, 31, fugiu da cidade. O comparsa Lucas Eduardo Macedo dos Reis, 22, foi encontrado em casa, confessou os assassinatos e revelou onde os corpos estavam escondidos. Detalhe: Reis já havia sido interrogado pela Polícia Civil no dia do sumiço de Fernandes e dos adolescentes, mas não levantou suspeitas. Boles acabou preso alguns dias depois por PMs da inteligência de Santa Maria, na região central do Estado.

A atuação não se restringe apenas a casos de repercussão. A inteligência tem abastecido os colegas de farda e o Ministério Público (MP) com muitas informações sobre tráfico de drogas, foragidos e armas. Houve um aumento significativo das prisões e apreensões em 2011 se comparado com 2010 (ver quadro).

A Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) e a chefia da Polícia Civil não se manifestam sobre o novo perfil da BM porque consideram a situação em Caxias um caso pontual.

O Ministério Público (MP) preferiu não opinar.

ADRIANO DUARTE

Funções
– Brigada Militar: manter a ordem, prevenir e repreender crimes permanentes (que estão acontecendo, tais como tráfico de drogas e sequestro).
– Polícia Civil: investigar crimes que já aconteceram, elaborar inquéritos e responsabilizar os autores.
Estratégia adotada há um ano

O chefe do Comando Regional de Polícia Ostensiva (CRPO/Serra), coronel Nicomedes Barros Júnior, não gosta do termo “investigação” quando se refere ao trabalho de inteligência do P2. Ele ressalta que essa é uma atividade da Polícia Civil.

– Não há uma intromissão na atividade da Civil. Não movimentamos os casos de homicídios que aconteceram há dias ou meses. Agimos quando é um caso continuado, como foi o caso do duplo assassinato (na saída de uma boate no Pio X). Era uma situação de perseguição ao suspeito que resultou na prisão duas horas depois do crime – ressalta Barros.

Embora o oficial negue o perfil investigador, as funções são muito parecidas. Fortalecer o serviço foi uma estratégia adotada há um ano pelo oficial. Diante do tráfico de drogas cada vez maior na cidade e das poucas investidas por parte da própria corporação, Barros e subordinados entenderam que as ações deveriam ser turbinadas para coibir delitos estimulados pelo consumo de crack.

Como um PM fardado chama muita atenção, os traficantes só poderiam ser combatidos com discrição. Então, optou-se pelos servidores à paisana. Até 2010, o 12ª Batalhão de Polícia Militar e o CRPO tinham o serviço devidamente separado e apegado à burocracia. A reformulação se deu no início de fevereiro, quando as duas seções se fundiram.

Parte da equipe foi cedida para auxiliar o Ministério Público (MP) no combate ao crime organizado.

Outros, se desdobram para monitorar pontos de tráfico e monitorar os passos de homicidas e assaltantes. Comprovado o delito, uma equipe fardada é acionada para dar o flagrante.

– Só atuamos em casos de delito permanente. O tráfico está acontecendo, então vamos lá. Se há um sequestro, estamos atentos. Não cabe a nós apurar o que já aconteceu há dois, três dias ou semanas – explica o coordenador do setor de inteligência do CRPO, capitão Flori Chesani.

– Se eles (PMs) conseguem chegar ao objetivo, quando se consegue um flagrante, é válido porque soluciona um problema. Quanto mais provas tiver, melhor para julgar. Mas só defiro mandados para a BM se houver elementos suficientes e critérios na denúncia. Ainda acho que o melhor seria integrar as duas investigações. Defendo um trabalho em conjunto.
Juíza Sonáli da Cruz Zluhan

Coronel garante haver integração

O oficial responsável pela reformulação do P2 da Brigada Militar em Caxias do Sul garante que a corporação está integrada aos trabalhos de investigação da Polícia Civil. Desde que assumiu o Comando Regional de Polícia Ostensiva (CRPO/Serra) no início de 2011, o coronel Nicomedes Barros Júnior deu respaldo para o serviço de inteligência repassar informações para as delegacias. A exceção é quando se trata de um dado não confirmado.

Barros cita como exemplo a apreensão histórica de 1,5 tonelada de maconha em uma propriedade rural no interior de Carlos Barbosa, em maio do ano passado. Segundo ele, a indicação de que traficantes ocupavam um sítio para distribuir a droga para todo o Estado partiu da BM. O Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) da Polícia Civil recebeu a denúncia e organizou o flagrante.

O oficial também afirma que tirar quase 30 policiais da linha de frente para colocá-los em um serviço discreto é essencial na prevenção da violência. Monitorar um criminoso ou capturar um foragido pode impedir um delito no futuro, no entendimento de Barros.

– Investigar é da competência da Polícia Civil. Atuamos na prevenção com um serviço diferenciado, e facilitamos a integração quando repassamos as informações para todos as delegacias de nossa área – defende Barros.

Coronel Barros

MULTIMÍDIA

Descontentamento entre delegados e agentes

É evidente a importância do trabalho da inteligência da BM para a segurança. A população, porém, ganharia muito mais se os comandos das duas corporações integrassem as equipes de investigação, como acontece na vizinha Farroupilha. Essa união, porém, parece distante em Caxias do Sul.

Agentes e delegados não falam abertamente, mas reclamam da falta de preparo dos brigadianos para coletar provas técnicas ou interrogar suspeitos, o que é plausível, uma vez que os brigadianos recebem treinamento diferente dos civis. Alguns reclamam que a corporação militar se intromete, talvez sem saber, em investigações em andamento da Polícia Civil. Outros questionam se os PMs lotados no serviço de inteligência não seriam mais úteis na prevenção, uma vez que mais policiamento inibiria crimes.

Tal descontentamento virou crise no ano passado, quando alguns delegados solicitaram ao juízes de Caxias do Sul que não liberassem mais mandados de busca e apreensão para brigadianos. O confronto institucional foi sepultado poucos dias depois, por ordem da Secretaria de Segurança Pública.

A delegada regional interina da Polícia Civil, Suely Rech, prefere não comentar sobre a atuação da BM por se tratar de um assunto institucional. Por outro lado, o capitão Flori Chesani contesta as opiniões contrárias. Diz que é do interesse dos PMs compartilhar as informações com a Polícia Civil.

– Na rua, sem chamar a atenção, a inteligência se antecipa, identifica suspeitos. Isso é prevenir. Estamos abertos para trocar informações a qualquer momento – salienta Chesani.

Efetividade
Mais de 90% das prisões por tráfico em 2011 em Caxias foram realizadas pela BM. Em anos anteriores, a Polícia Civil era responsável pela maior parte dos casos.
PIONEIRO