Brigada Militar fecha postos em Porto Alegre

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Comunidade teme que posto da 2ª Companhia, na Vila Elizabeth, seja o próximo a ser desativado pelo Comando-geral | Foto: Alina Souza / CP
Comunidade teme que posto da 2ª Companhia, na Vila Elizabeth, seja o próximo a ser desativado pelo Comando-geral | Foto: Alina Souza / CP

Estratégia visa colocar mais homens no policiamento ostensivo

Uma decisão tanto polêmica quanto assustadora foi tomada pelo comando da Brigada Militar, na Capital. Devido à falta de efetivo, a corporação decidiu fechar alguns postos fixos na zona Norte de Porto Alegre para remanejar o pessoal. A intenção é colocar mais homens no policiamento ostensivo.

A unidade no Parque dos Maias, no bairro Rubem Berta, está desativada desde janeiro. No posto do bairro Lindoia funciona somente a área administrativa, sem que ocorrências sejam atendidas. Agora a comunidade da Vila Elizabeth, no bairro Sarandi, teme a previsão de fechamento da estrutura da 2ª Companhia do 20º  Batalhão de Polícia Militar (20º BPM). A unidade, situada na rua Amparo, foi inaugurada em 1992. Os moradores da área e entorno estão empenhados em convencer o comando da corporação a manter o local aberto, já que a extinção pode aumentar a sensação de insegurança da população e propiciar um aumento de crimes. As pessoas que residem ali já conhecem os quatro brigadianos, que se revezam no posto em turnos de 12 horas. Os policiais militares, alegam o moradores, sabem das especificidades da área e da rotina dos habitantes.

Segundo a relações públicas Fernanda Koetz, de 33 anos, que mora em frente ao posto na Vila Elizabeth desde criança, há cerca de seis meses o movimento de viaturas começou a diminuir. Ao mesmo tempo, os relatos de pessoas que foram assaltadas e tiveram as suas casas arrombadas aumentaram. O vizinho de Fernanda Thales Ravasa, de 25 anos, teve o carro roubado a cerca de cem metros da unidade policial. Ele acredita que o possível fechamento do posto pode encorajar ainda mais os bandidos a atuarem na região. “Não era comum acontecer casos de roubos ou assaltos de dia”, disse a assistente administrativa Erusa Rabelo, de 51 anos, que em sua rotina costuma ir para a parada de ônibus no início da manhã. “Vou, mas sinto medo e temo quando as pessoas se aproximam de onde eu estou”, disse.

A comunidade tem se reunido diante do posto para discutir o assunto e lembrar que antigamente era usual ver crianças brincando nas calçadas. Muitos moradores cultivavam o hábito de se sentarem na varanda para conversar e tomar chimarrão. O aposentando Augimiro Dias da Silva, 73 anos, foi o responsável por mobilizar a comunidade, na década de 1980, para que fosse criado um posto da BM na área. Ele era zelador da Escola Estadual Ensino Fundamental Major Miguel José Pereira e preocupava-se com a segurança dos estudantes.

Até hoje, Silva guarda os jornais e fotos da época para mostrar a importância da instalação da unidade. Segundo ele, e outros moradores, a novidade — na época — melhorou o acesso das pessoas ao serviço da BM, diminuiu o número de delitos e inibiu a ação de bandidos.

“Fechamento é analisado”

O tenente-coronel Carlos Andrade, responsável interino pelo Comando de Policiamento da Capital (CPC), explicou que a carência de efetivo fez com que o 20º BPM tivesse que redimensionar a tropa. De acordo com o oficial, foi feita uma análise antes de a decisão ser tomada. “Não há sentido deixar um homem assistindo à televisão e não termos brigadianos para atender ocorrências do policiamento ostensivo”, comentou o oficial. “Sei que a comunidade fica incomodada com este tipo de situação”, afirmou o tenente-coronal.

Andrade disse considerar mais útil os policiais militares estarem nas ruas, no patrulhamento ostensivo do que dentro de uma estrutura física, muitas vezes sem ter o que fazer. “Vivemos um momento de crise”, salientou. “Na verdade, tudo gira em torno da carência de efetivo. Temos procurado otimizar os recursos humanos da cidade” acentuou. Andrade não confirmou a desativação da unidade no bairro Sarandi, mas não descarta esta possibilidade. “Estamos em estudo”.

O major Dagoberto Albuquerque, responsável pelo 20º BPM, afirmou que o comando está estudando a real necessidade de manter os postos ativos. No caso da 2ª Companhia, o major disse que esta unidade passou a operar somente durante a noite. De dia, os brigadianos atuam em ocorrências. “A estratégia é deixar os PMs mais próximos da população. O policial será muito mais útil”, comentou.

Na área do 19º BPM também há um posto fechado temporariamente. Houve um problema de estrutura, que deve ser reparado. A administração daquela unidade foi transferida para a sede do batalhão. Será pedido um laudo para o Centro de Obras da Brigada para agilizar os consertos. No ano passado, o déficit do efetivo da Brigada Militar, no policiamento ostensivo, era de 16,9 mil policiais militares.

Pedida permanência de posto

Assustados com a violência que tomou conta da Capital e a falta de policiamento, comunidades de bairros da zona Norte se mobilizam, tentando conseguir que os postos da Brigada Militar existentes na região permaneçam abertos. Alguns locais já foram desativados.

Representando aproximadamente 50 mil pessoas, a Associação dos Moradores da Vila Elizabeth e Parque (Ambep) já começou a negociar com a Brigada Militar a permanência do posto militar existente no bairro. A agremiação, inclusive, tem uma reunião prevista para março com a cúpula da corporação. “Vamos fazer 6 mil panfletos para informar a população e chamar a todos para o encontro que teremos com o comando da BM”, disse Marco Della Nina, vice-presidente da entidade. Para o representante da associação, é possível negociar com a Brigada, pois o posto tornou-se uma referência para os todos os moradores da vila Elizabeth.

Caso a Brigada Militar decida realmente suspender os trabalhos da unidade da 2ª Companhia do 20º BPM, os moradores ameaçam se mobilizar de maneira mais enfática. É possível, de acordo com Della Nina, que seja organizado um protesto no Centro de Porto Alegre, cuja manifestação terminaria na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini. “Vamos cobrar do governador José Ivo Sartori que tome posição de chefe de Estado e resolva este problema, que amedronta a todos nós”, acentuou Della Nina. “Afinal, Sartori é o comandante em chefe da Brigada Militar e pode encontrar uma solução”, ressaltou.

O vice-presidente da Ambep comentou que a cada dia a violência aumenta em todas as regiões de Porto Alegre. Assaltos, roubos, latrocínios (roubos seguidos de morte) e assassinatos estão sendo frequentes em qualquer área da cidade. A população, acentuou Della Nina, está à mercê de gangues de bandidos ou traficantes. “O posto militar nos transmite uma maior segurança”, observou.

O autônomo Leandro Mota, 56 anos, residente há 45 anos na região, concorda que com um possível fechamento do posto, a comunidade perderá uma referência. Ele ouve diariamente a reclamação dos vizinhos. “Percebo que todos estão com medo de perder o policiamento aqui”.

CORREIO DO POVO