“O ânimo dos delegados está muito ruim”

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Delegados boicotarão operações

Ao rejeitar proposta de reajuste do governo, categoria anuncia medidas em busca da equiparação com salários de procuradores 

Pouco mais de um mês após o término da onda de queimas de pneus e ameaças de explosão de bombas deflagradas por policiais militares gaúchos, agora os ânimos se incendiaram no alto escalão da Polícia Civil. No sábado, os delegados desencadearam um movimento que estão acostumados a sufocar: uma rebelião.

O clima de insatisfação com salários e condições de trabalho transbordou em assembleia da Associação dos Delegados de Polícia do Estado (Asdep). A proposta do governo de 10% de reajuste, a ser pago em duas parcelas (em janeiro e em abril), foi rechaçada. Além disso, foi anunciada uma série de boicotes, que inclui a entrega de todos os cargos de chefia e a recusa de participar de grandes operações (leia quadro abaixo).

Mais de 300 delegados estiveram na assembleia, num universo de cerca de 500 que estão na ativa. A categoria exige vencimentos equiparados aos dos procuradores do Estado, que, segundo a Asdep, têm salário inicial superior em mais de duas vezes ao dos delegados em começo de carreira (cerca de R$ 7 mil), uma discussão antiga.

Caso não sejam atendidos, os delegados ameaçam adotar medidas drásticas, como se recusar a participar dos mutirões de investigações de homicídios e de operações.

– Sabemos que não há condições financeiras para a equiparação imediata. Queremos que o governo reconheça nosso direito para negociarmos uma forma gradativa de reajuste – explica o presidente da Asdep, Wilson Müller Rodrigues.

A recusa de se apresentar à Operação Verão, que pode resultar em sindicância para os delegados que não atenderem às convocações, também congrega uma discussão em torno das diárias, em torno de R$ 70 por delegado. Durante a semana, o secretário da Segurança Pública, Airton Michels, foi alvo de fortes críticas de delegados na rede social Facebook após ter dito, em reunião com integrantes da Asdep, que os policiais devem ser abnegados (em vez de brigar por diárias maiores).

A Secretaria da Segurança Pública avisa que só se posicionará após receber a decisão de forma oficial, o que está previsto para acontecer hoje. Presente em parte da assembleia de sábado, o chefe de Polícia, Ranolfo Vieira Júnior, adota a mesma postura.

– Por enquanto não gostaria de me manifestar sobre esse assunto – disse o delegado, por telefone.

GUILHERME MAZUI

As medidas
O que delegados anunciam
– Recusar convites para ministrar aulas e coordenar disciplinas nos cursos de formação da Acadepol
– Não participar das operações Verão, Serra e Fronteira
– Suspender as operações que vêm sendo feitas e que geram a chamada “agenda positiva” para o governo do Estado
– Colocar os cargos de confiança à disposição, deixando de exercer as funções de diretor de departamento ou divisão, delegado regional de polícia ou junto à Secretaria da Segurança Pública. A soma chega a cem cargos, entre eles 12 diretores de departamento e 29 delegados regionais.
– Não exceder a carga horária legal (40 horas semanais), gozando as folgas necessárias toda vez que houver convocação para trabalho extraordinário, como sobreavisos e escalas de plantão

ENTREVISTA

“O ânimo dos delegados está muito ruim”

Wilson Müller Rodrigues, presidente da Asdep 

Com mais de três décadas de experiência no meio policial, o presidente da Asdep, Wilson Müller Rodrigues, assegura jamais ter visto na categoria um clima tão forte de revolta. Já aposentado, Müller falou a Zero Hora sobre a insatisfação dos delegados. Confira os principais trechos da entrevista:

Zero Hora – Os delegados estão desgostosos com seus salários e condições de trabalho?

Wilson Müller Rodrigues – Nunca vi um clima de revolta tão grande. A categoria tem o direito da equiparação salarial com os procuradores. Já disse ao governo que somos razoáveis para discutir os prazos, mas não abrimos mão do direito. As condições de trabalho também desagradam. Há delegados que, por contrato, trabalhariam oito horas por dia, mas acabam atuando 15, 16 horas.

ZH – O governo do Estado já sabia desse clima de insatisfação geral?

Müller – Vínhamos avisando sobre o histórico salarial da categoria. Creio que o governador não tenha tido ciência do clima de revolta entre os delegados de polícia. Se soubesse, ele não deixaria chegar nessa situação.

ZH – Os delegados com cargo de chefia vão entregar seus postos?

Müller – Foi uma decisão tomada em assembleia, pela maioria. O ato é uma decisão pessoal.

ZH – As medidas anunciadas vão ter impacto no combate à criminalidade?

Müller – Não se cogita greve, as delegacias não vão deixar de trabalhar. Não vejo problema imediato no combate ao crime, mas o ânimo dos delegados está muito ruim.

Greve branca

Os delegados garantem que não vão paralisar, que não se trata de movimento paredista. Mas o que se arma, ostensivamente, é uma greve branca envolvendo as delegacias da Polícia Civil gaúcha. O resultado da assembleia convocada pela Associação dos Delegados de Polícia (Asdep) é um petardo: os associados decidiram não realizar operações, boicotar aulas na Academia e, a mais difícil de se concretizar, recomendam que todos os delegados com funções de chefia coloquem o cargo à disposição do governo.

Pelo tamanho das ameaças, pode-se ver o nível de descontentamento da categoria. A causa da equiparação salarial com procuradores estaduais, ninguém nega, é justa – até porque delegados lidam com um fardo mais que pesado, a linha de frente do combate aos crimes. A estimativa da Asdep é de que mais da metade dos delegados estaduais estava presente ao encontro. Isso não significa, porém, adesão automática às propostas radicais tiradas da assembleia. Uma coisa é votar, outra é parar. Um veterano delegado, hoje chefe de departamento, confidencia: “Só entrego o cargo se os outros começarem primeiro”. Há quem aposte que nenhum chefe colocará o CC à disposição. A recusa em ir para a Operação Verão ocorre em repúdio às baixas diárias – mas é muito provável que alguns delegados aceitem participar, mesmo com verba pequena. Até o boicote a operações cotidianas contra o crime é muito difícil de se concretizar. Podem ser punidos, de várias formas, os que se recusarem a participar das ações. O mais provável é que o governo Tarso Genro parta para um misto de conciliação e advertência. Sabe que nem todos os ânimos exaltados na Asdep vão resultar em braços cruzados.

ZERO HORA