Brigada Militar simula protesto em treinamento para a Copa

79

16513612Ministrado pela BM a polícias de cidades-sede do Mundial, simulação preparou oficiais para atuar em manifestações 

Ao som dos berros de “estão com medinho?” saídos da garganta de 20 black blocs, uma tropa de choque da qual os gritos de comando entoavam em diferentes sotaques teve de enfrentar reações violentas de manifestantes na manhã desta sexta-feira. Estouros de foguetes, gás lacrimogêneo, barricadas em chamas e explosões de rojões fizeram parte de um cenário fictício armado quase às margens do Rio Caí, em Montenegro — onde a simulação cheirava, ardia e doía como na vida real.

Vestindo máscaras e arremessando pneus e galhos contra a tropa, osmanifestantes eram, na realidade, policiais militares atuando como figurantes. Já os oficiais nada tinham de ficção: tratavam-se de 33 policiais oriundos de mais de 10 cidades diferentes que concluem, na próxima semana, o curso de atuação em grandes manifestações ministrado pela Brigada Militar(BM).

Essa é a segunda edição do treinamento de formação de novos professores que a BM, com apoio do Ministério da Justiça, concede a policiais de Porto Alegree de outras cidades-sede da Copa do Mundo. Nesta etapa, apenas oficiais do Distrito Federal e de São Paulo ficaram de fora. Mineiros, cariocas, baianos e, entre outros, até maranhenses (atraídos pelos conflitos no sistema penitenciário do Estado) receberam as instruções e orientações de como atuar em protestos — principalmente quando uma minoria mais exaltada dá início ao quebra-quebra. A encenação da manifestação representava a prova prática de conclusão do curso. E, para o professor da turma, major Cláudio Feoli, os alunos foram aprovados.

— Buscamos, sobretudo, aferir a reação do policial. Nem todos têm perfil para atuar em tropa de choque, é preciso ter um equilíbrio para a resposta de uma manifestação agressiva. Ela não pode ser igualmente agressiva e também não pode ser omissa. Então, dentro desses parâmetros, os alunos desempenharam bem a função deles. A orientação para esses grupos mais agressivos é a mesma dos demais: preservar a integridade física das pessoas — afirmou Feoli.

Fora algumas escoriações consideradas normais neste tipo de operação, não houve maiores ferimentos durante o treinamento. Ao longo dos 35 dias de curso, os 33 policiais — começaram 35, mas dois desistiram — passaram por orientações sobre direitos humanos, psicologia das grandes massas, atuação adequada diante de manifestantes agressivos e uso de equipamentos de efeito moral. Já no início da preparação, a identificação das fardas é arrancada, e cada um passa a ser chamado — em vez de seu nome — por um número.

Na simulação em Montenegro, os recém-formados tiveram de criar a própria estratégia para dispersar o grupo de manifestantes exaltados e, caindo em valões e recebendo arremessos de frutas e objetos, enfrentaram um terreno minado. O protesto que, ao menos proporcionalmente, não condiz com a realidade, traduziu, em parte, os movimentos populares que as polícias militares aguardam para o período do Mundial no Brasil. Se depender da orientação do curso, excessos devem ser raros durante o torneio.

— Nós iremos trabalhar aos mesmos moldes do ano passado, durante as manifestações, sempre procurando a preservação da vida e da integridade física de todas as pessoas, não só dos manifestantes, mas também da nossa tropa. Continuaremos trabalhando com o serviço de inteligência, tentando fazer a identificação dessas pessoas (que promovem atos agressivos) e, no momento oportuno e possível, fazer a detenção delas — disse o subcomandante-geral da BM, coronel Silanus Mello, que acompanhou de perto o treinamento.

Ao final dos mais de 4,5 quilômetros percorridos, os novos 33 oficiais e futuros especialistas em controle de tumultos receberam um batismo. Abaixo da água jorrada de uma mangueira do Corpo de Bombeiros ao frio de uns 15ºC que fazia durante a manhã no Vale do Caí, eles finalizaram o desafio com uma oração que encerrava mais ou menos assim: “marchemos rumo à vitória”. E, agora, que venha a Copa.

*Zero Hora