ZERO HORA: Quando o crime flerta com a polícia

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Mais do que mostrar crimes sendo ordenados de dentro de cadeias, gravações envolvendo traficante que estava preso na Pasc revelam a perigosa relação entre o tráfico de drogas e os aparatos estatais de segurança pública e lançam um desafio: como estancar o poder dos barões da droga.

O gaúcho Paulo Márcio Duarte da Silva, o Maradona, ordenava execuções de rivais, determinava punições a desafetos, coordenava a distribuição de cocaína de dentro da prisão considerada a mais segura do Rio Grande do Sul. Maradona aproveita-se da incompetência do Estado para transformar a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) no seu escritório. Sabe-se disso há cinco anos.

Na semana passada, porém, escutas telefônicas revelaram que Maradona, proprietário de uma boate em Novo Hamburgo utilizada para lavar dinheiro do tráfico de drogas, queria investir no conserto e no pagamento de combustível de viaturas para policiar as imediações de seu estabelecimento. É a primeira vez que se identifica bandidos financiando o aparato oficial de polícia para os auxiliar a praticar novos delitos.

O conteúdo do grampo telefônico inquieta especialistas e expõe as dificuldades para sufocar o comércio de drogas. No diálogo entre Maradona e o comparsa Márcio Alexandre Vargas, o Ceguinho, os dois conversam sobre a necessidade de segurança para a boate do detento. Vale a pena reler a conversa:

Ceguinho – Amanhã, ele já vai entrar em contato, vai botar um soldado e um sargento pra nós, tá? Acerta também doação para a Brigada Militar.
Corregedor-geral da BM, o coronel João Gilberto Fritz surpreende-se com o que define como “uma demonstração de ousadia”:

(…)

Ceguinho – E já vai entrar em contato com o superior, este contato dele, pra nós… Pra dar manutenção pra viatura, entendeu? Que eles tão mal de dinheiro, o Estado, né?

Maradona – Hum.

Ceguinho – A gente dá uma manutenção, compra um combustível pra viatura, estas coisas. Ajudar eles, né?

– Estamos investigando, e espero que não tenha se concretizado a doação, mas não temos registro de algo semelhante na Brigada Militar.

De fato, o que Maradona projetava tem significado mais amplo. É algo novo em se tratando de crime organizado. Como alerta Guaracy Mingardi, especialista na área e ex-subsecretário Nacional de Segurança Pública:

– Uma coisa é pagar para um soldado, ou um policial civil, para ele proteger a sua atividade ilícita. Outra coisa é pagar para uma instituição consertar viaturas, colocar combustível. É o tráfico entrando na instituição, algo muito mais grave. Ele (Maradona) está tão imbricado com a polícia, que parece não ter pudores.

Além de pesquisador e ex-gestor, Guaracy trabalhou durante dois anos na Polícia Civil de São Paulo, na década de 80, para realizar sua dissertação de mestrado.

Coronel da reserva da PM de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança, José Vicente chama atenção para a tentativa de cooptar agentes públicos para o tráfico de drogas. Como ação preventiva, recomenda aos oficiais da BM “intolerância” com desvios.

– Policiais flagrados recebendo dinheiro de bandidos, por exemplo, mesmo valores insignificantes como R$ 1, devem ser demitidos. É uma forma de sinalizar para a corporação que desvios não serão tolerados – pondera.

Promotor de Justiça lotado em Canoas, na Região Metropolitana, Amilcar Macedo observa que a quadrilha de Maradona projetava ainda ingressar na política lançando a mulher do bandido ao cargo de vereadora.

O traficante Maradona pretendia ainda recrutar PMs fora do horário de expediente para assegurar o bom funcionamento interno de sua boate – o chamado bico, prática que, embora ilegal, tem sido tolerada por sucessivos comandos da BM.

– Ele queria contratar sargentos e tenentes de fora de Novo Hamburgo para fazer bico no bar – detalha o promotor.

Os tentáculos de Maradona também visavam à Polícia Civil. Ao analisar dezenas de horas de conversas do bandido que tem apelido de craque, Macedo descobriu o projeto de cooptar investigadores lotados em delegacias da Polícia Civil.

– O Maradona queria informações privilegiadas sobre inquéritos, buscas e apreensões, mandados de prisão – complementa.

Com três décadas de experiência operacional, o delegado Regional Executivo da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, José Antonio Dornelles de Oliveira, coloca o dedo na ferida quando o assunto é sufocar o tráfico de drogas:

– Não se faz segurança pública sem dinheiro, sem investimento. Segurança pública é algo caro.

Por que Dornelles faz o alerta? Porque são as carências das polícias – seja pelos veículos estragados e sem gasolina, seja pelos salários defasados – que abrem margem para corrupção.

CARLOS ETCHICHURY

Relações perigosas
2009
São comuns os relatos de policiais militares cooptados pelo tráfico e por outros crimes que acabam sendo presos, indiciados e condenados:
– Ex-militares se unem em roubos: a Polícia Civil indiciou seis ex-militares (cinco ex-PMs e um sargento da Aeronáutica) por oito assaltos a banco. Além de usar fardas e armas de guerra, eles costumam usar os clientes como escudos humanos, além de cortar comunicações das cidades atacadas. Entre os que acabaram presos está Wanderley Grehs, o Magrão, ex-policial expulso por tráfico e roubos.
– Um inquérito policial-militar aberto após a morte do soldado José Luiz Ramires da Rosa, em setembro de 2007, resultou na denúncia de 59 PMs. Pelo menos 19 PMs foram afastados. Eles eram suspeitos de envolvimento com roubos, peculato e patrocínio indébito (bico), entre outros delitos.
2007
– Seis policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM) foram afastados (e um deles preso) após serem flagrados por uma equipe de reportagem do Grupo RBS retirando um aparelho de som, uma TV e um ar-condicionado de um ponto de venda de drogas na Vila Lupicínio Rodrigues, bairro Menino Deus, em Porto Alegre. A ação dos PMs não foi registrada por eles em nenhuma delegacia da Polícia Civil nem era de conhecimento do 9º BPM. Assim que eles deixaram o ponto de drogas com duas viaturas e levando os objetos, o tráfico voltou a operar normalmente.
– Suspeita em grupo: quatro policiais militares são presos por suspeita de homicídio de um colega e de liderar uma quadrilha de roubo de carros e assalto a bancos em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos.
2001
– Policial civil condenado por tráfico: a 1ª Vara Criminal do Fórum do bairro Sarandi, em Porto Alegre, condenou o policial civil Altair Richa a quatro anos de reclusão por tráfico de drogas. Ele foi preso em flagrante em 1999, pela Polícia Federal, quando supostamente negociava a compra de nove quilos de cocaína.
1996
– Ex-militares presos por assalto: sete assaltantes foram presos após tirotear com a Brigada Militar e roubar cerca de R$ 3,5 mil de um banco em Frederico Westphalen, ferindo três pessoas. Entre os presos estavam o ex-PM Adelar Galhardo e seu irmão, o ex-militar do Exército Osmar Galhardo.
Como asfixiar o poder do tráfico
LAVAGEM DE DINHEIRO
Especialistas em segurança pública e policiais consultados por Zero Hora apontam medidas efetivas para reduzir a influência do narcotráfico:
– Traficantes são especialistas em lavar dinheiro. Aquisição de bares e boates, como o Mano’s Bar, de Maradona e cujo nome é referência à facção à qual ele pertence (a dos Manos), hotéis, fazendas, obras de arte e investimento no mercado financeiro são formas de esquentar dinheiro. Coibir a lavagem é uma das mais eficientes formas de asfixiar o tráfico.
AMPLIAR PRESÍDIOS FEDERAIS
– Concebida para receber presos perigosos e líderes de quadrilhas, prisões estaduais como a Pasc não cumprem seu objetivo. Primeiro porque permitem, inclusive, fugas. Segundo, porque bandidos as utilizam como escritório do crime. A solução é investir na construção de penitenciárias federais, nos moldes das quatro mantidas pela União, para receber líderes do crime. Unidades guarnecidas por agentes bem pagos têm se mostrado mais eficientes no isolamento de bandidos.
RECURSOS PRIVADOS
– Proibir que as polícias aceitem recursos privados para financiar, por exemplo, construção e manutenção de batalhões da Polícia Militar e delegacias da Polícia Civil, abastecimento e reparo de veículos, aquisição de armas e munição. As polícias devem ter estrutura que as permitam rejeitar doações. Os mais radicais, como José Vicente, ex-secretário Nacional de Segurança Pública e coronel da reserva da PM de São Paulo, defendem a criação de decretos governamentais que proíbam o recebimento de auxílios privados.
FORTALECIMENTO DAS CORREGEDORIAS
– O serviço de correição deve ser intolerante com desvios. A corregedoria precisa jogar duro. O tráfico de drogas não sobrevive sem corrupção de agentes do Estado – em especial policiais Civis, Militares e Federais, integrantes do Ministério Público e da magistratura e agentes penitenciários. Policiais flagrados recebendo dinheiro de bandidos, por exemplo, mesmo valores insignificantes como R$ 1, devem ser demitidos. É uma forma de sinalizar para as corporações, mais vulneráveis por tratar diretamente com criminosos nas ruas, que desvios não serão tolerados.
INSUMOS QUÍMICOS
– Ampliar a fiscalização dos insumos químicos como éter, acetona e bicarbonato de sódio, produzidos no Brasil. Principal fabricante na América Latina, é do país que saem os insumos que são utilizados na produção de cocaína na Bolívia e na Colômbia – países que não têm indústria química. Especialistas alertam que não adianta criticar o governo boliviano pela condescendência com as plantações de coca (Erythroxylum coca), por exemplo, se é do Brasil que se originam os produtos químicos necessários para transformar suas folhas em cocaína.
MILITARES NAS FRONTEIRAS
– Mobilizar as forças armadas para atuar nas fronteiras, guarnecidas pela Polícia Federal, é quase unanimidade. Os defensores das tropas ponderam que a PF, com efetivo de 10 mil policiais, não tem como vigiar 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres. É pela fronteira seca que ingressa a maior parte da cocaína que abastece o mercado brasileiro.
PORTOS E AEROPORTOS
– Estima-se que por ano ingressem no Brasil entre 80 mil e 100 mil toneladas de cocaína. Metade da droga que entra no país é remetida para Europa e Ásia. Embora entorpecentes atravessem o oceano no estômago de “mulas humanas” – pequenos traficantes, geralmente africanos, que aceitam transportar droga no corpo, sob o risco de morte ou de prisão –, o tráfico em grande escala é feito através dos portos e dos aeroportos do país.

 

Multimídia

TENTÁCULOS DO TRÁFICO

Uma indústria bilionária ancorada na corrupção

Ninguém conhece o potencial econômico da quadrilha de Maradona. Estima-se que ele movimente algo em torno de R$ 150 mil por semana.

Maradona é peça de uma engrenagem transnacional e bilionária, chamada narcotráfico, capaz de influenciar a economia de Estados como Marrocos (produtor de haxixe), Bolívia (coca) e Afeganistão (haxixe e ópio). As cifras que essa S.A. do crime movimenta, a cada ano, são superlativas independentemente da fonte de informação. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca US$ 400 bilhões. Para o Banco Mundial, US$ 100 bilhões.

Autoridades ligadas ao governo dos EUA estimam entre US$ 100 bilhões e 300 bilhões. É tanto dinheiro que, em dezembro passado, Antônio Maria Costa, ex-diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime, anunciou que o narcotráfico teria salvado o Sistema Internacional de Compensações Bancárias da bancarrota após a crise de 2009.

– O cenário internacional não é bom – constata o juiz aposentado Wálter Maierovitch, fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, especialista em questões de combate à corrupção e ex-secretário nacional Antidrogas da Presidência da República.

E complementa:

– Tem uma frase do Al Capone (gângster ítalo-americano que, entre outras atividades ilegais, liderou o contrabando e a venda de bebidas alcoólicas durante a Lei Seca que vigorou nos Estados Unidos nas décadas de 20 e 30) que ficou famosa: “Eu consegui tudo isso porque tenho a polícia nas mãos”. É preciso bater sempre nesta tecla: corrupção policial.

É contra estes inimigos que as autoridades gaúchas lutam.

ZERO HORA