Comandante tenta negociar reajuste

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Por trégua em protestos, coronel sugere acordo com PMs insubordinados

O comando da Brigada Militar está decidido a pôr um fim nos protestos de PMs por melhores salários – nem que, para isso, seja necessário fazer logo uma proposta de reajuste nos soldos. O comandante-geral da corporação, o coronel Sérgio Roberto de Abreu, sugeriu ontem a integrantes do governo estadual que sejam retomadas negociações com associações de classe da BM a fim de se chegar a um índice de recomposição salarial.

Em contrapartida, seria exigido o fim das manifestações com queimas de pneus, que se repetem há mais de um mês em rodovias e diferentes cidades gaúchas.

– Nunca deixamos de desenvolver a proposta. Aconselhei que até o fim de semana seja oferecido um índice, que vai mostrar a boa vontade governamental e mostrar que os PMs sabem cumprir seu dever, independentemente de suas insatisfações salariais – pondera Abreu.

A ideia de Abreu foi exposta ao secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, ao subsecretário, Juarez Pinheiro, e à secretária da Administração, Stela Farias. O comandante da BM ressaltou que as associações que representam oficiais e sargentos não apoiam os protestos.

Os demais integrantes da mesa que debateram o possível reajuste estão cautelosos. Juarez Pinheiro afirma que não há consenso sobre se este é o momento certo de fazer uma oferta. Uma reunião com as entidades de classe da BM estava marcada para sexta-feira, mas nem isso está certo, diante do prosseguimento da queima de pneus.

– Oferecer uma proposta depende muito da interrupção dos protestos. A associação dos cabos e soldados (Associação Beneficente Antonio Mendes Filho, a Abamf) colocou nota nos jornais assegurando que não quer atuar fora da legalidade. Isso nos parece um bom sinal – opina Pinheiro.

Brigada não avança na identificação de rebeldes

No campo da repressão aos protestos, a BM parece não ter avançado. Abreu disse ter recebido informações sobre a identidade de participantes de protestos, mas sem provas. Ele afirma que muitos atos podem ter sido feitos por parentes e amigos dos PMs. Mas, se a BM consegue localizar bandidos que atuam nas ruas, como não identificou ainda os militares que ateiam fogo nos pneus? O comandante Abreu considera as situações bem diferentes:

– Não estamos lidando com criminosos comuns. Eles não agem às claras, não fizeram greve. Se tivessem agido dessa forma, nossa reação seria diferente. É até provável que não sejam PMs que organizam os atos, mas apenas gente solidária a eles ou interessada em tirar proveito político.

Abreu ressalta que ainda não foi decidida a punição ao único que assumiu ter cometido protestos, um sargento da reserva da BM.

HUMBERTO TREZZI

O pleito dos PMs
– O soldo básico dos soldados da BM é R$ 1.246 mensais. A maioria ganha cerca de R$ 1,8 mil, se contadas as horas extras.
– Os PMs querem ver aprovada pelo Congresso a Proposta de Emenda à Constituição de nº 300, a PEC 300, que propõe equiparar salários dos PMs, bombeiros e policiais civis de todo o país aos do Distrito Federal, os mais bem pagos do Brasil. O piso salarial de um soldado da BM, que é de R$ 1,2 mil, passaria para R$ 3,5 mil.
– Oficiais também estão descontentes. Pleiteiam o reconhecimento como integrantes do quadro das carreiras jurídicas do Estado. O salário básico de um capitão da BM, com formação em Direito, é de R$ 4.780, enquanto o ganho inicial de um procurador do Estado, por exemplo, é de R$ 16.119,10.

Mais dois protestos no Estado

Desde o início de agosto, já foram contabilizados 39 protestos de PMs no Estado, a maioria com queima de pneus. Na madrugada de ontem, foram feitas duas manifestações. Em Canguçu, sul do Estado, houve queima de pneus , na rodovia São Lourenço do Sul-Canguçu (ERS-265). No local, preso a uma placa de sinalização, havia um boneco vestido com a farda da BM com uma mensagem: “Soldado morto de fome”.

Na Serra, a manifestação ocorreu em Nova Prata, no km 1 da ERS-324, perto do trevo de acesso à Vista Alegre do Prata. Além de três pneus em chamas, os manifestantes afixaram um boneco trajando a farda da BM em uma placa e uma faixa com os dizeres: “Unidos pela dignidade salarial”.

 

ZERO HORA