Caça ao umbigo

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Oscar Bessi Filho

O umbigo é uma cicatriz. Está no dicionário. E cicatriz é a marca deixada por uma ferida. Também está lá, no dicionário. Pode conferir. Talvez, por isso, tenha se espalhado o boato de que Deus anda repensando a sua criação mais complexa. E, caso o mundo acabe mesmo em 2012 e tenha que fazer tudo de novo, repetirá o homem como a sua imagem e semelhança. É. Mas sem umbigo.

O ser humano perde o foco por causa do umbigo. Impressionante. Deturpa a visão. Puxa para si, como um ímã. Depois que se acostuma a olhar para o próprio umbigo, o sujeito não quer enxergar mais nada. Não quer saber de coisa nenhuma. Só do umbigo. Ele é a fonte de todas as razões, de uma moral aparentemente incompreensível para os demais, de uma nova ética. Esconde em si todas as justificativas. Em nome do umbigo, se desacredita, se desnorteia, se descarrila. Se faz e desfaz, se refaz o malfeito. Bem-feito.

Perguntaram-me se eu considerava este ou aquele grupo culpado pela história de corrupções que nunca muda. Ou pelo descaso com saúde, educação, segurança pública e todo o elenco de garantias fundamentais do cidadão. Respondi, foram os umbigos. A concepção de Estado para administrar o todo é boa. As corporações públicas são boas. Os servidores públicos são bons. Os umbigos é que atrapalham.

Em que momento um policial passou a valer pouco para seus governos? No dia em que um deles, ou um grupo deles, perdeu o foco. E passou a vislumbrar apenas o seu umbigo. Aí, se perdeu o valor coletivo. A força institucional. O poder de transformação e posicionamento. Que quando o homem se perde no seu próprio umbigo, vende seu passe mais barato. Nem lembra mais que existem outros. E outros umbigos surgem. E se chocam. Aí, as novas feridas se abrem, coletivas. Bem mais difíceis de cicatrizar.

Talvez esteja aí uma boa saída para a recuperação da dignidade por parte das corporações policiais. Caça aos umbigos. Agora. Já. Sem umbigo para olhar, os humanos voltarão a pensar no coletivo. É isso. Decretem os umbigos foragidos. E prendam-nos! Mas, cuidado, eles se escondem muito bem. E ainda seduzem.

Correio do Povo