Oficiais da BM ameaçam levante

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Após rejeição de reajuste de 10% oferecido pelo governo estadual, categoria estuda medidas como boicote à Operação Golfinho 

Com a negativa, no sábado, da Associação dos Oficiais da Brigada Militar ao reajuste de 10% proposto pelo governo estadual à categoria, pode estar para começar mais um levante na Segurança Pública. Depois das queimas de pneus promovidas durante a negociação com soldados e cabos e da ameaça de boicotes de delegados a operações da Polícia Civil, o desacerto entre oficiais e o Palácio Piratini pode resultar na paralisação de serviços.

Aexigência básica e imediata é a equiparação salarial com os delegados. Ainda que o presidente da entidade, tenente-coronel José Carlos Riccardi Guimarães, não revele quais as 20 ações a serem tomadas caso o governo não contemple a reivindicação, algumas delas transparecem nos discursos dos manifestantes.

Pode haver boicote, por exemplo, à Operação Golfinho, cujas diárias são consideradas insuficientes. A atuação de PMs em alguns presídios, função que é da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), também seria reavaliada. Problemas em viaturas pode virar pretexto para que os veículos não saiam das garagens

– Vamos terminar o documento amanhã (hoje) de manhã e entregar ao governador ou ao chefe da Casa Civil. Que nos ofereçam um índice que não dê para rir. E muito menos chorar – afirmou Riccardi.

O chefe da Casa Civil, Carlos Pestana, disse que não receberá os manifestantes. Mas garante haver margem para negociações. Apesar de negar haver uma onda de insatisfações na área da segurança, Pestana destaca que entende as razões para os pedidos de reajuste acima do ofertado pelo governo:

– Tem um conjunto de categorias que estava com seus reajustes muito represados. A dificuldade é que os delegados querem um reajuste igual ao dos procuradores, e os oficiais, igual ao dos delegados. Vamos ver o que é possível, conforme as condições financeiras do Estado.

Comandante da BM, o coronel Sérgio Abreu esteve presente à assembleia da associação de oficiais no sábado, que reuniu 519 policiais, dois terços deles, fardados. A proposta do governo, levada pelo comandante, era de 10% de reajuste em janeiro e a continuidade das negociações em abril.

– Hoje há uma perda da paridade entre os oficiais e os delegados, e isso certamente entrará na pauta para ser resolvido – ponderou o coronel.

MULTIMÍDIA

ENTREVISTA

“Descartamos qualquer medida de terror na BM”

José Carlos Riccardi Guimarães, tenente-coronel

Representante dos oficiais, tenente-coronel Riccardi falou por telefone com Zero Hora:

Zero Hora – Qual a defasagem do vencimento dos oficiais na comparação com os delegados?

José Carlos Riccardi Guimarães – Para começo de conversa, temos que ganhar igual a eles. Os delegados de primeira classe têm um vencimento no mínimo 40% superior ao dos capitães. O capitão está esmagado, é o que mais trabalha na instituição. O coronel recebe hoje uns R$ 8 mil, líquido. Tinha que ganhar o dobro para estar igual a 1994, porque desde lá perdeu 100% do poder aquisitivo.

ZH – As medidas que podem ser tomadas com uma negativa do governo podem refletir indignação com o sucateamento da corporação, também?

Riccardi – Nós precisamos pedir uma auditoria de segurança na Brigada para ver quanto furo tem. De pessoal, de efetivo, de material, de viatura. Uma auditoria para que a gente pare de enganar a sociedade de que ela está bem segura. A sociedade está malcuidada com essa Brigada defasada.

ZH – Na negociação com os soldados, houve queima de pneus para pressionar o governo. Vocês descartam essa forma de protesto?

Riccardi – Descartamos qualquer medida de terror na BM. Mas o governador, que é um homem de reivindicação, que não venha usar o Código Penal Militar (contra possíveis manifestações de oficiais). Ele é um homem que defende os direitos humanos.

ZERO HORA