Projeto de lei readapta ao serviço PMs acidentados em serviço

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Reunião foi realizada no refeitório do Quartel-general da Brigada Militar Foto: Andréa Graiz / Agencia RBS
Reunião foi realizada no refeitório do Quartel-general da Brigada Militar
Foto: Andréa Graiz / Agencia RBS

No círculo formado na tarde desta quarta-feira por mesas e assentos no refeitório do Quartel-general da Brigada Militar, em Porto Alegre, havia um contraste entre oficiais fardados, de um lado, e policiais em trajes civis portando muletas ou sentados em cadeiras de rodas, de outro.

No grupo de 16 PMs acidentados, boa parte se surpreendeu com o que o comandante-geral, coronel Fábio Duarte Fernandes, anunciou, pouco depois das 17h: o envio de um projeto de lei à Assembleia Legislativa para readaptar os servidores ao serviço e devolver-lhes a autoestima, tragada por um sentimento de abandono pela corporação.

Um por um, os acidentados presentes à reunião convocada pelo comando da BM se apresentaram. Acomodado em sua cadeira de rodas, um sargento de 60 anos repetiu o padrão das falas anteriores:

— Sargento José Carlos Gomes. Acidentado em 1987, atingido por arma de fogo, com lesão medular. Reformado como segundo-tenente.

Gomes lembra que sua vida mudou na noite em que um homem armado ameaçava matar a mulher na Rua José Maurício, no bairro Jardim Lindoia. Ao tentar negociar com ele, Gomes levou um tiro que atravessou o mamilo direito e atingiu a medula. Nunca mais caminhou.

Com a reforma, o PM perde adicionais. O sargento Pedro Paulo de Oliveira, 51 anos, caiu de uma escada em 1994. Sua coluna se tornou um emaranhado de parafusos. No entanto, seguiu em serviço porque se fosse reformado “as condições financeiras virariam nada”. O comandante-geral aponta que haverá 50 vagas para os acidentados, a maioria em setores burocráticos e de monitoramento eletrônico, o que permitiria deslocar PMs dessas posições para as ruas. A seleção será feita por uma junta médica.

Associações de policiais acidentados estimam haver entre 800 e 900 policiais nessa situação no Estado, muitos deles ainda na ativa. Fora de serviço haveria cerca de 350 reformados e entre 60 e 70 inválidos — que não podem ter atividade alguma.

A medida é vista com esperança de se recuperar o orgulho e aumentar os ganhos — promoções, horas extras e demais adicionais do profissional da ativa. Emocionado, o sargento Oliveira tomou a palavra na reunião e expôs as dificuldades enfrentadas pelo grupo:

— Temos condições de dar o melhor para a Brigada, mas não éramos vistos.

Sentada ao seu lado, a filha Paola, 10 anos, olhou para o pai, orgulhosa.

André Mags

andre.mags@zerohora.com.br